Madame Bovary, de Gustave Flaubert – Resenha Crítica

Primeira resenha crítica que posto no blog, apreciem.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert (Rouen, 12 de Dezembro de 1821 – Croisset, 8 de Maio de 1880), é um romance de caráter psicológico, típico do romance do século XIX, época em que foi escrito. Flaubert foi um autor muito preocupado com o rigor formal de suas obras, demorando em torno de cinco anos na escritura do livro. Por ocasião de seu lançamento, em 1857, o livro foi considerado uim escândalo e acabou sendo processado por imoralidade, por lidar com o tema do adultério. Marie-Antoine-Jules Sénard, advogado que defendeu o livro, recebeu uma dedicatória de Flaubert na abertura da obra, em que o autor diz que, com esse caso, o livro ganhou uma autoridade verdadeiramente inesperada por ele.

Os leitores, em geral, sentem-se envolvidos, de forma positiva ou negativa, com a obra, podendo sempre analisar os fatores dos quais gosta ou desgosta dentro de sua narrativa e de sua composição. A obra lida com sentimentos dos mais diversos, como o amor, a traição, o desejo, o tédio e a tristeza, sem, contudo, cair em pieguices ou em lugares-comum. Sua construção é altamente trabalhada pelo autor, constituindo-se de três grandes partes, cada qual delas contará uma parte da trajetória da personagem: a apresentação e os primeiros amores, as aventuras e a ruína, nessa ordem.

O romance conta a história do casal Bovary, composto de Charles e Emma Bovary. Ele é apresentado como uma pessoa extremamente limitada e conformada com sua mediocridade, nas palavras do narrador: “Cumpria suas pequenas tarefas cotidianas como um cavalo de circo”(MB, p.19). Contraposta a ele está Emma Bovary, que busca viver os romances com que tanto sonhara em sua mocidade, jamais conformando-se com apenas o que tem, numa busca constante por uma satisfação plena de seu ser. É como diz o narrador: “[…]Emma buscava saber o que significavam exatamente as palavras felicidade, paixão e embriaguez, que tão belas lhe pareceram nos livros.” (MB, p.42).

Emma busca, fora do casamento, a satisfação que sua vida cotidiana não seria capaz de trazer. Ela apaixona-se por um escrivão jovem, Léon, que muda-se para Rouen e a deixa deprimida. Ela é, então, seduzida por um aristocrata, Rodolphe, com quem vive ardentes aventuras. Ela apaixona-se perdidamente e deseja fugir com ele, tal qual acontece nos romances. Ele, porém, a descarta com uma carta de despedida escrita com muito cinismo. Após ser abandonada por ele, ela volta a reencontrar o escrivão, agora mais velho, e vive com ele também um caso adúltero. Enquanto isso acontece, a personagem acaba envolvendo-se em empréstimos exuberantes a fim de satisfazer sua luxúria e seu consumismo, precocemente vislumbrado pelo autor. Ao final, sem amantes e arruinada financeiramente, Emma envenena-se. Charles, de amor, não suportando a realidade da traição da esposa, acaba morrendo também.

Texto de suma importância, Madame Bovary é uma leitura essencial, sendo considerado um dos melhores romances da literatura, sendo, provavelmente, o melhor dos livros do romance realista de caráter psicológico do século XIX. Sua grande importância está na qualidade estética e na profundidade que o autor conseguiu atingir com seu texto, altamente elaborado, por sinal. Para mostrar seu mundo, Flaubert põe em cena uma personagem em total desacordo com sua realidade, com sua posição social e com seu sexo. É nessa personagem que se centrarão as ações desenvolvidas na narrativa e os principais dilemas da obra.

Emma, mais do que simplesmente uma adúltera, é uma personagem que busca a liberdade, querendo romper com os limites sociais de seu sexo, pois na sociedade francesa daquela época, o direito da busca de satisfação (intelectual e carnal) estava restrita aos homens, estando as mulheres em posição secundária. Essa luta por libertação faz parte do grande desespero da personagem em procurar uma completude para si: ela transita pelas virtudes do casamento, pela fé, pela filosofia, pelos desejos carnais e pelos luxos materiais, não conseguindo, jamais, satisfazer-se. Por fim, a morte da personagem, por envenenamento, é lento e agoniante, tal qual a morte em vida, que ela passaria caso fosse uma conformada, tal qual seu marido.

O autor faz, com seu texto, uma feroz e contundente análise crítica da sociedade francesa de sua época. Para atingir esse objetivo, o autor constói o universo da obra de forma binária, apresentando-nos sempre duas faces da moeda: o campo e a cidade, o tédio e as diversões, a mediocridade e os sonhos, o burguês e o aristocrata, o padre e o pensador racional. Ao final da obra, contudo, nenhum desses valores realmente supera o outro, sendo todos, de forma magistral, mostrados em sua pequeneza pelo narrador, mesmo que triunfem ao final, o que nos mostra como toda essa sociedade instável e em trânsito (a França entre as revoluções) baseava-se em relações de puras aparências, não raras vezes pautada pelo consumismo e por um pedantismo inerentes (como a relação entre o pe. Bournisien e o farmacêutico Homais, ambos baseando-se em leituras superficiais de grandes obras para discutir suas filosofias com o outro).

Essa obra é uma leitura essencial para qualquer amante da literatura, especialmente para aqueles que preferem leituras mais realistas, mas altamente elaboradas em seu universo. Leitores de Machado de Assis decerto amarão essa obra, que foi uma de suas leituras. Por ser um romance altamente complexo e de linguagem rebuscada, creio que sua leitura ideal deve ser feita após uma relativa maturidade intelectual, pois um leitor desavisado pode ter grandes problemas com sua lida, não atingindo o nível de leitura recomendável a uma boa apreciação dessa grande obra.

Lucas Elias Fonseca, acadêmico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do curso de Letras. Trabalho entregue para a cadeira de Crítica Literária e avaliado pela professora Maria Regina Barcelos Bettiol.

BIBLIOGRAFIA:

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary; tradução Ilana Heineberg. Porto Alegre: L&PM, 2010.

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